Especial: Biochips – O futuro microscópico

Divulgação/Dangerous ThingsUm objeto muito pequeno, das dimensões de um grão de arroz, promete revolucionar o mundo em um futuro bem próximo: estes são os biochips. Enquanto os wearables – gadgets usados como acessórios pessoais – são a nova aposta da indústria de tecnologia, com acessórios inteligentes capazes de obter dados como frequência cardíaca e consumo calórico de uma pessoa, os biochips podem ser considerados como um passo adiante: a evolução dos wearables.

Na prática, esses gadgets são pequenos circuitos eletrônicos envoltos em uma cápsulo de vidro cirúrgico, tudo em escala milimétrica. A aplicabilidade dessa tecnologia é imensa e ainda em estudo. Suas implantação em seres humanos já é possível, embora com funções limitadas.

Nos próximos dez anos, contudo, eles poderão fornecer dados sobre o organismo que o abriga. Informações como níveis de glicose, ureia, oxigênio, hormônios e colesterol devem ser as primeiras a serem obtidas a partir de fluidos corporais, como o sangue. Essas substâncias serão analisadas ao passar pelos microcanais presentes na cápsula de vidro: microssensores eletrônicos vão identificar a presença de biomarcadores, parâmetros biológicos que sinalizam se a pessoa está doente ou saudável.

Isso permitirá, por exemplo, detectar o trânsito de células cancerígenas ou identificar sinais de um infarto iminente. “Os biochips vão acelerar o diagnóstico das doenças, porque são ultrasensíveis. Isso vai permitir exames de análises clínicas mais rápidos e baratos”, diz Idagene Cestari, diretora de bioengenharia do Instituto do Coração (Incor).

Para ter acesso às informações coletadas e analisadas pelo biochip, o médico precisará aproximar um gadget, como smartphone, do paciente: os dados serão transmitidos a partir do biochip por meio de ondas de radiofrequência e exibidos na tela do dispositivo externo. Além de tornar o diagnóstico mais eficiente, os biochips podem ajudar no tratamento de doenças crônicas, como diabetes.

Segundo Ricardo Ferreira Bento, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), especialidades como otorrinolaringologia são pioneiras na exploração de recursos dos biochips. Bento é um dos primeiros responsáveis do Brasil pelo implante coclear, pelo qual o dispositivo é introduzido no ouvido de pacientes surdos – quando não é possível fixar o aparelho no fundo do ouvido, o implante é realizado no tronco cerebral.

Esse chip libera impulsos elétricos, normalmente produzidos pela estrutura de um ouvido sadio, que estimulam diretamente o nervo auditivo: o cérebro então interpreta essa informação, e o usuário restaura a capacidade de perceber sons – ainda que eles sejam “robóticos”. O paciente dificilmente consegue distinguir as vozes de pessoas diferentes, mas pode falar ao telefone ou acompanhar aulas normalmente. Estima-se que mais de 300.000 pessoas usem esse biochip no mundo.

O número de pedidos de registros de biochips cresce no mercado americano, segundo confirmação do FDA. No Brasil, a competência é da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que ainda não registrou nenhum biochip para uso humano. Entre os médicos, o tema ainda causa controvérsia, embora eles reconheçam o potencial da tecnologia.

Para Mauro Aranha, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), os médicos podem implantar dispositivos, desde que sua eficácia esteja demonstrada pela literatura médica. “Antes de fazer o implante, é preciso consultar a comissão de ética do hospital ou o Conselho Regional de Medicina”, diz Aranha.

Enquanto as pesquisas seguem, usos mais simples do biochip se popularizam. Alguns fabricantes, por exemplo, investem na criação de biochips para automatizar tarefas do dia a dia. E vêm encontrando mercado. O americano Amal Graafstra, de 38 anos, implantou em sua mão um chip de identificação por rádio-frequência (RFID, na sigla em inglês) para substituir as chaves do carro e de casa. “Eu queria algo que fosse conveniente como a biometria e mais fácil e barato”, diz o consultor de TI.

A tecnologia também está presente no Brasil. Em 2014 foi inaugurado, em Belo Horizonte,  a Área 31 Hackerspace, na Universidade Fumec – primeiro laboratório comunitário, aberto e colaborativo, que possibilitou a vinda dos primeiros biochips ao país.

Segundo um dos fundadores do laboratório, Ewerson Guimarães, alguns testes para aumentar a capacidade de armazenagem de dados – que hoje é de até 144 bytes por chip – já estão avançados.

“Recebemos três chips e já fizemos testes de esmagamento, e o material implantado em uma coxa de frango aguentou um impacto de 51 kg e em silicone 15 kg. Também já conseguimos guardar mais dados nos chips e agora vamos começar a fazer algumas coisas como, por exemplo, transformar uma fechadura analógica em digital”, explica.

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Um dos focos dos três pesquisadores é utilizar a tecnologia para automação residencial (controle da iluminação da casa, por exemplo), e, exigindo poucos movimentos para atender às necessidades do usuário, o chip poderia beneficiar pessoas com deficiência.

De acordo com Guimarães, cerca de 20 pessoas já manifestaram interesse em participar dos testes e implantar o biochip. Um dos interessados é o administrador de redes, Alan Galvão, 33.

“A principal expectativa é o que pode ser gerado de funcionalidades, primeiro para a ciência, depois para nós mesmos e para as empresas, garantindo a confidencialidade. É um recurso muito novo e que assusta, mas ainda existe muita anticultura, pessoas que não têm conhecimento dando opinião. Pra mim, (o biochip) é a mesma coisa de ter um número da sua carteira de identidade do tamanho de um grão de arroz”, diz Galvão comemorando a chegada do material.

Apesar do interesse, o administrador prefere esperar mais um pouco (para fazer o implante). “Vou esperar aumentar a capacidade de armazenagem, mas não é preciso ter medo, estamos falando de uma infinidade de possibilidades”, diz.

A área de segurança também está de olho nos usos dos biochips. A empresa RCI First Security and Intelligence Advising, responsável pela segurança de 58 entre as cem famílias mais ricas do Brasil, trabalha há quase uma década no desenvolvimento de um modelo usado para rastreamento de usuários. “Implantamos o chip em 258 pessoas, sendo cerca de 48 brasileiros”, diz Ricardo Chilelli, diretor-presidente da companhia. Os implantes foram feitos na região próxima à clavícula para impedir a retirada por meio de amputação de membros.

Em 2007, porém, os testes foram suspensos: era necessário aumentar a potência do sinal de localização dos usuários, o que aqueceria excessivamente a pele, causando rejeição. Todos os biochips foram retirados. Recentemente, a dimensão dos biochips foi aumentada, permitindo a colocação de uma bateria maior. “Até o início do ano que vem, queremos encontrar a forma de aumentar a intensidade do sinal sem causar rejeição”, diz Chilelli.

O controle de animais domésticos também está na lista de aplicações do novo gadget: cientistas desenvolveram um microchip similar ao código de barra e as fitas magnéticas como uma forma de identificação automática. Esses chips transmitem os dados via rádio frequência (RFID) contendo a identificação do animal, endereço, nome dos donos e outros dados necessário para o controle.

As cidades do litoral norte de São Paulo já estão com previsão para o início da instalação desses chips nos animais devido ao grande número de animais perdidos nas ruas. Após a data estipulada pela prefeitura para a instalação dos chips, os animais encontrados nas ruas serão recolhidos e identificados, e o dono terá que pagar uma multa para a retirada do animal.

O grande poder desses novos gadgets gera dúvidas e incertezas, como toda tecnologia capaz de reinventar o mundo em que vivemos. Seriam os biochips capazes  de estreitar os laços homem-máquina a níveis microscópicos, de modo com que estejam cada vez mais presentes e imperceptíveis? O tempo irá dizer, e não será preciso esperar muito.

Fontes: Veja , Wikipédia, O Tempologopet