Entrevista: Luciano Manhães de Andrade Filho, Faculdade de Engenharia Elétrica da UFJF

Luciano Manhães de Andrade Filho possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2001), mestrado em Instrumentação Científica pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (2004) e doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/COPPE (2009), com período sanduíche no Centre Européen pour la Recherche Nucéaire (CERN) em Genebra. Atualmente é professor Adjunto IV da Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em Circuitos Eletrônicos, atuando principalmente nos seguintes temas: Processamento de sinais para calorimetria, Processamento digital em FPGA, Sistemas de Qualidade de energia elétrica.

 

1. O que o levou à escolha da Engenharia Elétrica e a seguir carreira acadêmica?

Desde criança me interessei em saber como as coisas funcionavam. Na escola, ainda com 12 anos, pedi para o meu pai de presente o curso de Eletrônica por correspondência do Instituto Universal Brasileiro. A carreira acadêmica veio como consequência de sempre adorar o ambiente de pesquisa na Universidade.

2. Como surgiu a oportunidade de fazer um mestrado em outro país? E o doutorado?

Iniciei meu processo de formação científica no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), na Urca, RJ. Lá fiz Iniciação Científica e mestrado. Desde a época de IC eu trabalho com pesquisas que necessitam de grandes colaborações internacionais, como o Projeto Auger, na Argentina, MARIACHI nos EUA, Double Chooz na França e CERN na Suíça. Então tive a oportunidade de fazer grande parte da minha formação fora do Brasil.

3. Fale um pouco sobre sua área de pesquisa no CERN.

No CERN está funcionando, atualmente, a maior e mais complexa máquina já construída pelo homem: o acelerador de partículas LHC. No meu doutorado, eu trabalhei na parte final de montagem e testes deste grandioso sistema. Foram necessários 30 anos e mais de 10.000 pessoas trabalhando. Eu dei a sorte de participar dos momentos finais da sua criação e presenciar o início da sua operação.

Basicamente, nosso grupo é responsável por filtrar os dados que vêm dos detectores, no intuito de armazenar somente as informações relevantes que saem das colisões de prótons que ocorrem dentro do acelerador. Nós desenvolvemos eletrônica de processamento de dados e alguns algoritmos que rodam neste sub-sistema para realizar a tarefa de filtragem da informação.

4. Como foi ter seu nome em uma premiação tão estimada como o Prêmio Nobel? Ou na revista Nature?

Isto é graças ao fato de eu pertencer a uma grande colaboração, onde os resultados finais, divulgados nas revistas, recebem o nome de todas as pessoas envolvidas na construção deste imenso acelerador. Claro, é muito bom para o nosso departamento e nossa universidade, pois junto com o meu nome, aparece também a instituição a qual eu pertenço.

5. Há outros engenheiros brasileiros trabalhando no CERN?

Infelizmente a quantidade de brasileiros no CERN é bem inexpressiva, quando comparada a dos países desenvolvidos. O grupo brasileiro de engenharia mais forte no CERN é o da COPPE/UFRJ, que foi onde eu fiz o meu doutorado. Não sei te dizer precisamente o número, porque isso depende do tempo dedicado e grau de atuação de cada um. O que posso dizer é que participar deste experimento é sem dúvida nenhuma um divisor de águas na carreira de qualquer engenheiro ou aluno de engenharia.

6. Você desenvolve outras pesquisas na UFJF? Fale um pouco sobre elas.

Sim, trabalho com processamento de dados em FPGA. Com esse foco venho trabalhando em equipamentos para monitoramento de qualidade de energia elétrica, processamento de imagem para sistemas embarcados e já trabalhei também com transmissão de dados pela rede elétrica.

7. Fiquei sabendo que você também é músico, você acha que a música influencia no seu trabalho de alguma forma?

Assim como minhas pesquisas em engenharia elétrica, a música para mim é uma outra paixão. Tudo que é feito com prazer e muito suor é gratificante. No caso da música, não tenho nenhuma pretensão em me profissionalizar, mas tenho recebido incentivos por parte dos amigos e alunos a lançar cada vez mais vídeos no meu canal. Tenho que confessar que estou adorando essa brincadeira.

8. Você gostaria de acrescentar alguma coisa para a entrevista?

Aos alunos, um conselho de quem já passou por todo esse processo de aprendizado e estudo em sala de aula e agora está do outro lado. Eu sei que nosso curso é um dos mais difíceis e vocês as vezes precisam se preocupar mais em sobreviver do que em aprender. Se você realmente quer se realizar como engenheiro um dia, não pense assim. Pense em aprender, questione, se apaixone por cada novo aprendizado e o resto virá naturalmente.

 

logo_pet2