Entrevista: Danilo Knop, um engenheiro com uma perspectiva diferente de carreira

Danilo Knop tem 32 anos, mora em Salvador-BA é formado em Engenharia Elétrica, com ênfase em eletrônica, pela Universidade Salvador. Sempre atuando na área de gestão, trabalhou na Angola e no Rio de Janeiro pela Odebrecht. Em meados de 2015, decidiu sair do mercado da engenharia para se voltar para o mercado fiscal, estudando para concurso público e conseguindo uma aprovação em dezembro de 2016. Desde então está aguardando ser nomeado para o cargo de Auditor Fiscal. Em paralelo, continua estudando para concursos, além de estar desenvolvendo um trabalho num escritório de advocacia, num setor ligado à área de Ciência da Computação. Esse ano ele completa 10 anos de formação e irá apresentar sua trajetória profissional um pouco fora dos padrões pensados por muitos no mundo da engenharia.

  • Como foi seu início de carreira?

Lembro da minha época de faculdade e de como a pouca experiência faz falta nessa difícil empreitada que é se formar em Engenharia Elétrica. Não se preocupem! Esse curso não é difícil só para você. Ele é difícil para todo mundo, de uma forma ou de outra!

Os cursos de engenharia proporcionam a possibilidade de atuação em áreas abrangentes, a exemplo do trabalho que desenvolvo atualmente, que não é relacionado com minha formação.

Em termos de áreas de atuação diretamente relacionadas a Elétrica, destaco que, no meu caso, que possuo formação em elétrica com especialização em eletrônica/telecomunicações, eu poderia atuar nas áreas técnica, de pesquisa/desenvolvimento, de telecomunicações e de gestão. Basicamente essas. Pensando nisso, no terceiro semestre do curso consegui uma bolsa de iniciação científica, no quinto estagiei na própria universidade, no sexto estagiei na fábrica da Ford em Camaçari e no oitavo estagiei na Oi. Ou seja, tentei ter experiências em todas as áreas que minha formação me possibilitava atuar para poder escolher melhor com o que eu iria querer trabalhar depois de formado. Por fim, me inscrevi no programa de Trainee da Odebrecht, no qual fui aprovado. Logo após me formar, fui trabalhar em Angola como Trainee.

  • Sobre essa ida para Angola, explica para a gente como foi essa experiência.

No nono semestre comecei a procurar programas de Trainee para me inscrever. Caso não saibam, quando uma empresa desenvolve um programa de Trainee, normalmente, e falando de uma maneira bem resumida, ela está querendo selecionar jovens profissionais para treiná-los para, possivelmente, assumirem cargos estratégicos. Mas o que seriam esses “cargos estratégicos”? Simplificando, são os cargos de liderança, que podem estar ligados às áreas técnica ou administrativa.

Me inscrevi em mais de 30, isso mesmo, trinta programas de trainee, sendo que só fui para a última fase de alguns poucos e só consegui a aprovação no da Odebrecht. Após ser aprovado, fui direto para Angola e lá trabalhei por três anos e meio na modernização e ampliação de uma Usina Hidrelétrica.

Como a engenharia nos permite escolher dois rumos profissionais (ou técnico, ou de gestão), desde o início optei pela atuação a nível de gestão. Atuar a nível gestão significa não ser engenheiro de campo, mas sim um engenheiro que usa seus conhecimentos de engenharia para desempenhar atividades relacionadas à área administrativa, que dá apoio para que a área técnica possa desempenhar o seu trabalho.

Como já mencionei anteriormente, fiquei em Angola por 3 anos e meio. Como trabalhei numa Usina Hidrelétrica (usinas ficam, geralmente, “no meio do mato”), morava num alojamento na obra e vinha ao Brasil a cada 60 dias. A estadia em Angola foi muito boa. Os alojamentos eram confortáveis e, apesar das diferenças culturais, o povo angolano é muito parecido com o brasileiro. Além da experiência profissional valiosa, a experiência de vida é inigualável. Voltei de lá com outra cabeça e novos amigos espalhados pelo mundo inteiro, pois haviam pessoas de todas as nacionalidades na obra.

  • O que te fez voltar para o Brasil? Quais foram as dificuldades encontradas nesse retorno?

Apesar de todo o aprendizado que tive em Angola, eu não queria me estabelecer lá, como muitos engenheiros faziam. Eu queria voltar ao Brasil ou ir para outro país para ter novas experiências profissionais em obras de outro tipo. Por isso decidi sair de Angola.

Embora já tivesse tomado essa decisão ao completar 2 anos e meio lá, meus líderes ainda não queriam me liberar para sair da obra. Nessas horas temos que ter maturidade e sermos profissionais, pois tanto nós quanto a empresa para a qual trabalhamos temos expectativas. Assim, conversamos e combinamos que eu ficaria lá mais um ano e, depois disso, procuraria outra obra para mim.

Completado o tempo combinado, consegui uma vaga na obra da linha 6 do metrô de São Paulo, mas, infelizmente, não assumi lá em virtude de um acidente de moto que sofri e que me deixou afastado do mercado de trabalho por um ano.

  • Sobre o acidente de moto que você sofreu, conta para a gente como foi lidar com as sequelas no ambiente profissional, tanto na época quanto agora.

Menos de um mês após retornar de Angola sofri um acidente de moto que me deixou com uma sequela permanente (perda dos movimentos do braço direito).

Em virtude da perda dos movimentos do braço, tive que reaprender a fazer tudo que fazia antes (eu era destro). Mas a nossa capacidade de adaptação é tão extraordinária que, tendo paciência e disciplina, reaprendi a fazer tudo. Hoje vivo normalmente, tanto profissionalmente quanto pessoalmente.

Sem dúvidas, pensava muito em como seria retornar à vida profissional. Se eu teria alguma queda de produtividade, se eu não me sentiria psicologicamente bem, etc. Felizmente, após um ano de recuperação, fui trabalhar na obra do VLT Rio pela Odebrecht. Lá consegui desempenhar minhas atividades sem problemas e percebi que todos os receios que eu tinha não passavam de simples receios.

Se eu tivesse optado por atuar na área técnica, certamente teria tido mais dificuldades para retornar ao trabalho, mas como sempre atuei na área de gestão (atividades administrativas com o uso de computador), não tive maiores problemas.

  • Explica para a gente o que você está buscando hoje, como foi “abandonar a engenharia” para buscar esse objetivo e as suas motivações para isso.

Desde o início da minha vida profissional em Angola percebi que a Odebrecht dava muita oportunidade de crescimento. Em contrapartida, e num movimento natural, o profissional tinha que assumir cada vez mais responsabilidades. Afinal, oportunidades e responsabilidades são fatores diretamente proporcionais.

Nesse sentido, a cada dia que passava eu assumia mais responsabilidades e, tanto em Angola quanto no VLT Rio, era normal eu trabalhar de domingo a domingo, literalmente. É claro que eu não trabalhava por opção, mas porque era necessário. Caso contrário, as coisas não andavam e a obra atrasava.

Em virtude desse cenário, comecei a procurar alternativas para ter uma melhor qualidade de vida (salário justo e carga horária definida). Foram quatro meses pensando, até que cheguei a uma conclusão: a melhor saída seria estudar para concurso público. Assim, em meados de 2015, pedi demissão do VLT Rio e voltei para a casa dos meus pais em Salvador para estudar. Muitas pessoas me perguntam por que não estudei enquanto trabalhava. A resposta é simples: eu trabalhava de domingo a domingo. Tinha hora pra chegar, mas não tinha hora pra sair.

Como sempre trabalhei na área administrativa, não fazia muito sentido eu estudar para concursos da área técnica (ex: Petrobrás, marinha, etc.). Dessa forma, decidi estudar para uma área que eu me interessasse e que fosse importante para o país. A área que escolhi foi a carreira fiscal (Auditor Fiscal).

Como é possível perceber, formei em engenharia, mas “abandonei” a carreira de engenheiro. Muitos engenheiros não pensariam em fazer o que fiz, mas eu sempre tive a cabeça aberta e a certeza de que o que importa é analisarmos nossa realidade pessoal e decidir, com base nas informações que temos, o que achamos ser melhor para nós no longo prazo. Foi isso que eu fiz. Isso não significa que fiz a escolha certa e nem que não possa me arrepender no futuro. Significa somente que, aparentemente, fiz a melhor escolha com base nas informações que tinha no momento.

  • O que você diria para um engenheiro recém-formado, ou até mesmo com anos de experiência, que se encontra em uma situação complicada dentro desse atual mercado tão conturbado da engenharia brasileira?

O que eu diria para um engenheiro nessa situação é: tenha calma e foco em perseguir uma nova oportunidade. Os cursos de engenharia, normalmente, são muito bem aceitos no mercado de trabalho. Não significa que você vai conseguir arranjar o emprego dos seus sonhos, mas significa que se você for minimamente esforçado, você não ficará desempregado.

Nesses anos de experiência no mercado profissional pude perceber o interesse das empresas em contratar engenheiros, inclusive para desempenhar funções não relacionadas diretamente à engenharia. Alguns dos motivos para esse interesse se referem à maneira sistemática dos engenheiros de pensar e de agir. A capacidade que temos de pensar em “blocos” (inputs, tarefas e outputs) é um grande diferencial no atual mercado de trabalho.

Uma coisa muito importante a se ter em mente é que, na grande maioria das vezes, as empresas não estão interessadas em contratar profissionais que tiveram as maiores notas na faculdade. Elas se interessam em contratar os profissionais com maior capacidade de resolver problemas. Fazendo uma analogia, é algo do tipo: “missão dada é missão cumprida”. Seu líder não quer saber como você vai fazer. Ele só está interessado no fato que você recebe um input e necessita processar esse input, no menor prazo e ao menor custo, para gerar um output que servirá de input para que outro setor consiga realizar o seu trabalho. Assim a empresa conseguirá entregar ao Cliente o serviço/produto que foi contratado, gerando lucro.

  • Gostaria de complementar algo à entrevista?

Um ponto adicional que gostaria de comentar é a importância de saber se comunicar bem. Ao falar isso me refiro tanto à comunicação verbal quanto à escrita.

Em ambos os casos é preciso ler bastante. Não significa que você tem que ter uma biblioteca em casa e que ame ler Dom Casmurro. Eu, por exemplo, sempre odiei literatura, mas isso nunca me impediu de ler sobre temas que tenho interesse. Por exemplo, ficção científica, livros técnicos, notícias, etc. O que importa é estar sempre lendo, pois isso faz uma grande diferença na maneira de nos comunicarmos. Desde o vocabulário, organização de ideias, velocidade de raciocínio e a própria utilização adequada da nossa língua, que sabemos que não é fácil.

Por fim, não se enganem. Vocês precisarão enviar muitos e-mails quando estiverem trabalhando, e pega muito mal quando você envia um e-mail com aquele erro crasso de português.

Um grande abraço e espero ter contribuído de alguma forma para sua formação, futuros engenheiros!

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