Entrevista: Daniel de Almeida Fernandes, um engenheiro com uma carreira inspiradora

Daniel Fernandes possui Bacharel em Engenharia Elétrica, modalidade Eletrônica, pela Faculdade de Engenharia São Paulo – FESP (2004), mestre em Engenharia Mecânica, subárea Controle de Sistemas Mecânicos, pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – Poli/USP (2008), e doutor em Tecnologia Marinha, subárea Guiagem, Navegação e Controle de Veículos Subaquáticos Não-Tripulados, pela Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia – NTNU, Trondheim, Noruega (diploma expedido em 2015 e reconhecido pela USP em 2016). Tem experiência profissional em P&D de hardware e firmware, atuando principalmente nos segmentos industriais de eletromedicina, e sensoriamento e medição. Tem experiência como docente nos cursos de Análise de Circuitos Elétricos, Eletrônica Analógica, e Eletrônica Digital na escola SENAI ”Conde José Vicente de Azevedo”, unidade 1.13, em São Paulo/SP, atuando no planejamento, preparação, e ministração de aulas teóricas e práticas, em salas de aula, laboratórios, e oficinas, bem como experiência na preparação, revisão, e atualização do respectivo material didático.

  • Sua graduação foi em Engenharia Elétrica, porém seu mestrado foi em Engenharia Mecânica por que essa mudança de área?

Isso não passa de um mal-entendido, pois o controle automático, que é minha especialidade, é multidisciplinar e, na verdade, quando eu fiz a graduação em engenharia elétrica eu tive o primeiro contato com controle automático, me apaixonei e isso, de fato foi minha pós-graduação, tanto o mestrado quanto o doutorado, só que a oportunidade que eu tive de trabalhar com controle automático foi com um veículo submarino, daqueles operado remotamente, que a gente chama de ROV (Remotely operated vehicle) lá no departamento de mecânica da escola politécnica da USP, ou seja, seria do mesmo jeito se eu tivesse na elétrica, já que o projeto é multidisciplinar, o fato é que o professor que me orientou é vinculado à mecânica e foi esse foi o mal-entendido na verdade eu tenho o título sim de mestre em engenharia mecânica, mas eu não entendo mais que o básico de mecânica, fundamentalmente eu sou um engenheiro especializado em controle automático.

  • Seu Bacharelado e Mestrado foram feitos aqui no Brasil, porém seu Doutorado foi feito na Noruega, quais as principais diferenças percebidas por você entre a área acadêmica desses países?

Eu percebo de maneira bem simples, sem formular uma resposta muito cheia de detalhes, o exemplo o que eu vi durante o período que estive lá é que o pessoal costuma só ir para a graduação quando se tem certeza de que deseja se graduar, não é algo que a sociedade impõe. Este negócio, de maneira muito grosseira e que pode até parecer um pouco pejorativo talvez ou desrespeitoso da minha parte, é que aqui no Brasil a gente tem esses problema de: “estuda para você ser alguém na vida” , “estuda para você ter mais oportunidades que eu tive” como diziam nossos pais e avós, e lá na Noruega em uma sociedade em que tudo é mais equilibrado e que as oportunidades são melhores, quem frequenta as universidades está mais disposto a enfrentar os desafios porque não se sente obrigado e vai de boa vontade e não como algo que o pai manda. Contudo a o que nós brasileiros escutamos desde sempre é que nós temos que frequentar alguma graduação e não importa qual, claro que isso vai mais da cultura, e eu não sou nenhum embaixador para falar disso com mais propriedade, eu só tenho observado isso com mais clareza, pois eu nasci num lugar menos abastado na cidade de São Paulo, na zona leste já que essa parte é menos favorecida e fornece mão de obra e existem aquelas histórias que a massa da zona leste sai de manhã para procurar trabalho e volta à noite. Em resumo: eu fui um dos que cresceu ouvindo que eu tinha que estudar e graças a Deus eu gosto isso nunca foi um problema, mas para algumas pessoas acaba sendo. E além de frustrar a pessoa, acaba sobrecarregando o docente, pois ele continua tendo que lidar com aquele aluno que não está com vontade e gera aquele trabalho e todas aquelas situações em sala de aula que só acontecem devido à falta do interesse do aluno. E também, a principal diferença que eu vi é que a educação está intimamente relacionada com a cultura do lugar, por exemplo: o que eu observei na Europa é que há, de fato, a profissão de pesquisador, e aqueles que não possuem o interesse em dar aulas, podem engajar na academia e na pesquisa, e ainda existe um casamento muito bem feito entre as empresas e os pesquisadores. E dessa forma, os professores exercem essa função porque gostam.

  • Quais os principais benefícios que você destaca por ter uma experiência acadêmica no exterior?

A principal vantagem mesmo, eu penso que é técnica e eu digo isso com toda humildade, pois eu tive muita oportunidade de aprender, por exemplo, como a publicação científica é avaliada pelos nossos pares, quando você pensa em um artigo, também em publicações nacionais que serão lidas obviamente por brasileiros, sobretudo se forem escritas em português, o que restringe muito o público que pode avaliar, mas quando você pensa, por exemplo, em publicações internacionais como é o caso, sempre existem poucas revistas brasileiras, no entanto quando você pensa em uma revista internacional é diferente. Sempre foi muito importante pra mim saber que eu publicaria na Europa sob supervisão europeia de diferentes países e isso faz com que nós aprendamos a ser mais objetivos na forma de comunicação, que as línguas latinas, sempre muito belas, têm sempre um florido e não combina muito com a objetividade que é exigida. E é uma das coisas principais porque você aprende a se expressar academicamente para a massa acadêmica, você aprende a fazer parte de uma comunidade séria de pesquisa e com isso eu quero dizer o seguinte: de fato, brasileiros ou não, nós publicamos para o planeta inteiro e a maioria dos avaliadores falam língua inglesa, seja na Europa ou nos próprios países fora dela, contudo todos eles vão escrever em inglês e vão se expressar com aquela forma um pouco mais sintética, menos florida.

  • Em suas pós-graduações você desenvolveu trabalhos sobre um veículo submersível semi autônomo, como ele funciona e quais suas principais aplicações?

ROV de observação

Ele nada mais é que um “drone que anda na água” e a principal aplicação é transportar câmeras de vídeos, ou seja, ele é de construção robusta que você guia por controle remoto e que aguenta fortes pressões (alguns mergulham até 1000m). Porém a ideia desses veículos pequenos não é executar nenhum trabalho pesado, eles são classificados pela sua função, e os que eu trabalhei são os de observação que são como drones que funcionam embaixo d’água os quais levam uma câmera fotográfica onde você não poderia, visto que são ambientes extremamente arriscados ou insalubres e poderiam até custar uma ou mais vidas humanas. Mas existem outros veículos imensos como, por exemplos, os lançadores de cabos de telecomunicações, os que trabalham na cabeça do poço de petróleo, e eles são da classe de trabalho e são do tamanho de uns tanques de guerra, andam no chão debaixo d’água com esteiras de verdade e justamente estão fazendo tal “Pipe lane”, ou seja, eles estão colocando mesmo no solo, fazendo fixação de estruturas ali tanto para petróleo quanto para telecomunicações ou engenharia elétrica. São mesmos construtores subaquáticos e é como se fossem os guindastes e as máquinas que existem, porém todas submersas. E eles enfrentam diversos desafios tais como visibilidade curta, a vedação de água em profundidades imensas, o que é muito difícil de fazer. Os da classe que eu trabalhei possuem desafios técnicos muito interessantes, tais como, a estabilidade, como um helicóptero quando está solto, então ele tem 6º graus de liberdade de movimento (3º graus lineares e 3º graus angulares, em um espaço 3D) isso daí para você estabilizar para uma câmera de vídeo é um desafio imenso e a localização dele é sempre um desafio muito grande e dá muito trabalho de pesquisa até hoje, pois GPS não entra na água e lá naquele ambiente você não tem nenhum meio muito efetivo de fazer.

  • Quais as principais dificuldades enfrentadas por você no desenvolvimento deste trabalho? Você teve alguma parceria com o setor privado?

Não, com o setor privado nós não tivemos só porque a universidade tem interesse próprio nisso e de fato a Noruega é um “reino” e lá o setor privado, embora, tenha total liberdade e incentivo do governo, o interesse público é imenso como por exemplo a própria StatOil (como a Petrobrás) e ela é mesma estatal sem nenhuma parte privada, então nós tínhamos todo o apoio para uso de equipamentos sofisticados e quando não eram adquiridos pela própria universidade eles eram emprestados por outros parceiros estatais, como por exemplo: giroscópio de uso militar que custa algo em torno de meio milhão de dólares nós podíamos ter, porém obviamente o professor assinava e o reitor homologava e tudo para que se garantisse que ele não fosse danificado. Então não tivemos nenhum tipo de parceria na verdade, pois como é um trabalho feito para dar certo a Noruega é muito focada em resultado, eles são muito maduros como sociedade. A cidade em que eu morei foi fundada em 997, uma cidade que hoje tem 1020 anos, o que significa que é uma sociedade incrivelmente madura, pois passaram por muitos problemas com a realidade dura de quem vive mais ao norte do país então, assim, é uma sociedade muito desenvolvida que sabe o tanto que é custoso disponibilizar recursos e não dar retorno, o tanto que a universidade ganhou em 2015 ou 2014 (agora me foge na cabeça) o prêmio Nobel de medicina com aquele estudo do cérebro, e na verdade aquilo não foi o trabalho daquele casal que foi premiado (marido e mulher que são pesquisadores), foi o trabalho de investimento de mais de um bilhão de coroas norueguesas durante uma década seguida fazendo justamente acontecer o que levou para Noruega, ou seja dar a oportunidade para pessoas do planeta inteiro de trabalhar duro para contribuir. É um resultado mais ou menos esperado para o trabalho dedicado com muita ética, foco e disciplina e de todo o investimento pesado que você repara desde o primeiro dia convivendo com essa cultura, não há nada feito por acaso. E esse é o segredo do sucesso, há recurso e ele não é desperdiçado, e por isso não passamos nenhum tipo de dificuldade. A Noruega tem apenas 3% do seu território agricultável, de modo que verdadeiramente a economia deles é baseada na água, ou seja, extração de petróleo e os frutos do mar,  E a área em que eu estava pesquisando é de fato onde existe o maior aporte de recursos de toda a pesquisa feita no país, o que não é pouca coisa, mas as áreas relacionadas ao mar são feitas num campus totalmente isolado, como por exemplo, comparado à UFJF, existem tantas coisas acontecendo que há um pequeno campus muito menor que o campus principal, que é um campus dedicado apenas aos estudos relacionados ao mar.

  • Qual foi sua principal motivação para entrar na área acadêmica?

Dar aulas e estudar, pois sempre gostei de engenharia. Ser professor nunca foi um sonho de infância, mas a partir dos 26 anos de idade eu comecei a me movimentar a partir de uma vocação que “brotou”, que até então estava dormente. Fiz a faculdade de engenharia sem pensar nessa ideia, e eu sempre conciliei entre trabalhar na indústria e na academia, por exemplo: eu trabalhava durante o dia e frequentava a graduação à noite, então desde o colégio técnico, a graduação e por fim lá pelos meus 26 anos de vida eu comecei a alimentar fortemente a ideia de ser professor que surgiu espontaneamente eu pensei “eu tenho que contribuir mais para algo que eu gosto” e me surgiu a ideia de fazer isso. Eu trabalhava no SENAI como docente, já contratado, e fazia meu mestrado, pois eu percebi minha vocação e senti a necessidade de aprender mais. Desse modo começou a ocorrer invertido, eu ia para a universidade de manhã e trabalhava um pouco na pesquisa e a partir das 14h da tarde eu trabalhava no SENAI como contratado e sempre foi de maneira bastante simples, ou seja, o que motivou mesmo a área acadêmica foi porque eu sempre tive uma vocação muito grande para a engenharia elétrica e nunca troquei de profissão desde menino quando sonhamos em ser corredor de carro. Desde pequeno eu afirmava que seria engenheiro eletricista e esse era meu hobbie, eu brincava em casa e cheguei até a ter um laboratório com um osciloscópio que eu mesmo paguei e só me desfiz disso tudo só porque me mudei da casa dos meus pais. Dessa forma, eu era um “hobbista” muito sério com esse negócio, e não só me interessava ver funcionar (eu tenho predileção em por a mão na massa),  mas também em saber porque estava funcionando e também gostei de dar aula e a partir daí dei uma guinada na vida que foi quando larguei a indústria momentaneamente e comecei a trabalhar de freelance mesmo com o tempo sendo bastante escasso, pois o ganha pão mesmo vinha do SENAI de modo, que foram essas as duas principais vertentes: eu gostar de estudar engenharia elétrica e querer mesmo saber como as coisas que me fascinam funcionavam e, também achar que eu posso contribuir e dividir esse conhecimento com alguém.

  •  O que você diria para um estudante que está terminando a graduação em Engenharia Elétrica (quaisquer uma das habilitações) e está em dúvida sobre qual carreira seguir (acadêmica ou mercado de trabalho)?

Essa pergunta é muito difícil de responder, mas eu diria com total humildade para lembrar que o ser humano é uma das coisas mais preciosas que existe, ao mesmo tempo é também uma das mais complicadas, pois tem sentimentos e expectativas, e eu digo isso para que vocês lembrem que a indústria e a academia, apesar de serem vistas como coisas diferentes no Brasil, não são distantes uma da outra,  pois lá nenhuma delas é flor enquanto a outra é espinhos, ambas possuem flores e espinhos. Na academia você lida muito com o ser humano, com a expectativa da pessoa com o falar a linguagem da pessoa, por exemplo para o professor facilitar o aprendizado (óbvio que ele não ensina, é o aluno que aprende, mas ele pode se tornar um facilitador mais exitoso se tiver mais boa vontade), mas na indústria lidar com pessoas não é menos comum, você tem que enfrentar prazos muito curtos que o chefe ou o gerente cobra. Eu diria de maneira muito humilde que apesar do chavão que isso é, seguir o que o seu coração manda, ainda é a melhor opção, pois ninguém é feliz de verdade enquanto faz aquilo que não gosta, se a pessoa mudar de ideia ela é livre para depois mudar de atividade, eu por exemplo me formei engenheiro sem nenhuma pretensão de dar aulas, não sei como que a partir de um “estalo” me veio essa ideia e eu não mudei mais, e tenho cada vez mais vontades de dar aula e ser um professor melhor, sem nunca perder a mão na massa e o contato com a indústria, que são coisas que eu procuro manter. A mensagem final é: Siga seu coração, não há nenhum problema se você se equivocar, se quiser tentar dar aulas, qual é o problema? Vá em frente e tente, sem dúvidas você vai ter que começar nos cursos técnicos e cursinhos preparatórios por ter somente a graduação, e faça bem feito qualquer trabalho que você fizer e se não gostar, encerre sua turma com dignidade e obviamente não persista e vá mudar de atividade. Acha que tem vocação para o mercado? Que tem vocação para enfrentar o que é difícil, a competição é acirrada, mas se lance no mercado e procure emprego, seja um bom engenheiro e honre o juramento que fez ao CREA,  pois a nossa profissão é uma das mais antigas e nobres do mundo, E cabe a nós, engenheiros, tomar decisões que afetam o mundo inteiro.logo_pet2

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