Entrevista: Leonardo Rocha Olivi, faculdade de Engenharia Elétrica da UFJF

 

Leonardo Rocha Olivi atualmente é professor e coordenador do curso de Engenharia Elétrica, com ênfase em Robótica e Automação, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF, 2014). Possui graduação em Engenharia de Controle e Automação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP, 2006), mestrado em Engenharia Elétrica, na área de Automação e Controle de Sistemas Dinâmicos, pela Universidade de São Paulo (USP, 2009) e doutorado em Engenharia Elétrica, na área de Automação e Robótica Móvel, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 2014). Principais áreas de atuação: robótica móvel e manipuladores, controle de processos dinâmicos, filtragem em processos estocásticos e inteligência artificial.

 

 

 

Pergunta 1 – Por que você optou pela carreira acadêmica?

Quando eu me formei estava cansado da vida de estudante, e a indústria mostrou-se como um bom caminho. A remuneração era melhor quando comparada com as bolsas de mestrado e doutorado que as universidades ofereciam. Apesar desse fator, no fim das contas, isso é uma questão de aptidão. Após 6 meses na indústria, percebi que aquele não era o ambiente em que me via trabalhando. Tudo era muito imediatista, os grupos eram muito fechados e as pessoas tinham que resolver seus problemas sozinhas, o mais rápido possível. Durante a graduação, tive a oportunidade de fazer iniciação científica, o que me motivou a ingressar no mestrado e posteriormente, doutorado. A vida de professor não é fácil, temos que dedicar muitas horas do dia à isso, mesmo fora do ambiente de trabalho. Acho importante que, antes de dedicar-se permanentemente à vida acadêmica, o profissional conheça a indústria.

Pergunta 2 – Qual sua principal área de pesquisa?

A robótica faz parte da minha vida desde a graduação. Eu sempre tive como objetivo atuar nessa área e durante esse período, eu tive a oportunidade de fazer iniciação científica com um professor especialista em robótica e automação. Eu pude aprender um pouco de inteligência artificial na graduação também, com o professor Luis Martins. Depois disso eu trabalhei com automação de sistemas dinâmicos, no mestrado. No doutorado desenvolvi trabalhos diretamente ligados a robótica, na UNICAMP. Tive a oportunidade de expor um trabalho em um congresso na Coreia do Sul, o qual saí vencedor. Devido a isso pude conhecer o KIST (Korean Institute of Technology), e me fascinei com o tipo de tecnologia voltada para a robótica desenvolvida por eles. De volta ao Brasil, pude participar de uma pesquisa na área de robótica assistiva, que é a aplicação voltada para a área da saúde. Nós fizemos uma cadeira de rodas do zero, utilizando arduíno, para pessoas que sofriam de tetraplegia. O objetivo principal era retornar um pouco da autonomia ao paciente, nas tarefas mais básicas. Um algoritmo de controle compartilhado foi desenvolvido, para que a cadeira tivesse seu descolamento acompanhado por uma inteligência artificial. Atravessar uma porta por exemplo, se tornou uma tarefa trivial quando tem o suporte de um algoritmo treinado.

Pergunta 3 – Atualmente, o que você desenvolve nessa área?

Em um dos projetos que venho desenvolvendo, faço parte de um grupo de trabalho focado em robótica assistiva, onde pesquisamos sobre sinais cerebrais e musculares, todos eles aplicados para próteses. A professora Ana Sophia, por exemplo, construiu uma prótese e nós a controlamos. Outra vertente, na qual também desenvolvo projetos, é a construção e controle de drones. Eu oriento alguns alunos, todos na área de inteligência artificial. Os projetos variam desde o reconhecimento de voz para refino dos movimentos de uma prótese robótica até a previsão do mercado de energia.

Pergunta 4 – Mudando um pouco de assunto, qual a importância da participação de atividades extra classe por parte do aluno? Iniciação Científica, PET, Empresas Jr, estágio, etc

Os alunos da UFJF são bastante elogiados, principalmente pela faculdade oferecer uma boa fundamentação teórica. O que acontece é que realmente, pelo estilo de graduação, falta um contato com a parte prática. Muitas pessoas tem a ideia errada do que é pesquisa, por exemplo, que deve ser um meio de produzir tecnologia de vanguarda, novidades. Quando o aluno tem esse contato com a iniciação científica, com alunos da pós graduação ou faz parte de um laboratório, ele só te a ganhar pois o conhecimento está todo entrelaçado. Se o aluno tem pouco contato com áreas extra curriculares, ele sai um aluno padrão, treinado para fazer algumas coisas aprendidas como receitas de bolo. O aluno que tem essa oportunidade, sabe o que está fazendo, ele viu na prática o que foi ensinado em sala de aula. Os possíveis erros que acontecem são resultados da teoria mal aplicada. Isso não é uma realidade apenas da UFJF, mas de todo o país.

Pergunta 5 – Suas aulas são muito elogiadas pelos seus alunos, por serem diferenciadas das demais na UFJF. Como você chegou nesse modelo de aula que une a teoria e a prática?

Eu já tive muitas aulas convencionais e isso não funcionava bem. O aluno gosta de saber o porque das coisas, de ter contato com a parte prática. Durante o tempo em que estudei na USP, o professor Ivan Nunes, aplicava esse estilo de aula que tento reproduzir. Ele tentava explicar conceitos difíceis da maneira mais simples possível, quase como uma brincadeira de criança. Os trabalhos práticos cobrados eram complicados, mas se tornavam possíveis devido ao “simples” que era ensinado em sala de aula. Isso se encaixou bem no meu estilo de aprendizado e foi a minha inspiração para as aulas que leciono. Eu tento passar de maneira honesta o conteúdo, sem tentar complica-lo e encaixar trabalhos práticos quando possível.

Pergunta 6 – Onde nós, brasileiros, comparados com outros países, nos encontramos em relação a produção acadêmica?

Os outros países tem uma filosofia muito diferente da nossa no que tange á graduação. Nós brasileiros, seguimos um modelo mais antigo, onde o aluno na sala de aula, assiste a palestra dada pelo professor e depois estuda sozinho em casa o que foi dado. Precisamos de uma educação mais voltada para casos práticos, mais voltada para o estudo de problemas reais. Já no caso da produção acadêmica, que é mais relacionada á pós graduação, o Brasil realmente tem um problema grande. Aqui, nós professores, temos muitos trabalhos diferenciados, que envolvem pesquisa, extensão e aulas em si. Isso faz com que a produção acadêmica, efetivamente, fique a cargo de alunos. É raro de se ver times de professores altamente capacitados que tenham tempo de se reunir e fazer uma pesquisa de ponta. O que acontece na realidade é que o professor tem um grupo de alunos orientados, e estes desenvolvem as atividades. Além disso, faltam investimentos na área que tecnologia. Por incrível que pareça, dentre essas, a área de engenharia elétrica é relativamente barata. Todos esses motivos fazem com que a produção acadêmica no Brasil não tenha o nível esperado, por ser feita majoritariamente por alunos, que ainda estão no processo de aprendizado em como fazê-lo.

Pergunta 7 – Como você vê o cenário atual da robótica?

Atualmente, a maioria das pesquisas nessa área são realizadas por empresas privadas. A robótica, no fundo, não é apenas o dispositivo físico, isso é apenas um fim da mesma. A verdadeira identidade está na inteligência artificial, que antes de tudo são algoritmos usados em aplicações diversas. O tradutor do Google, por exemplo, é puramente um algoritmo de inteligência computacional, como redes neurais. Acho que em um futuro próximo os robôs vão fazer parte da nossa vida, realizando trabalhos repetitivos ou de muita precisão. A robótica assistiva também se mostra muito promissora e vem sendo desenvolvida com muita qualidade por países asiáticos.

Fonte: Pet Elétrica